Gustavo Mioto mostra coragem para inquietar o sertanejo em “Como É Que Fala de Amor?”
- Duda Almeida

- há 12 minutos
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Primeira música completa de “Pensamentos Intrusivos” usa a palavra como confronto e mostra um Gustavo disposto a questionar, de dentro, as regras do gênero que escolheu para construir sua história.

Antes de falar de amor, Gustavo Mioto resolveu falar do sertanejo.
Lançada em 3 de setembro, “Como É Que Fala de Amor?” é a primeira canção completa de Pensamentos Intrusivos, aparecendo logo depois de uma “INTRO” de apenas oito segundos. A faixa, composta por Gustavo ao lado de Daniel Ferrera, Giana e Elana Dara, foi escolhida como primeiro single do projeto.
E talvez não existisse maneira mais clara de apresentar o que Gustavo pretende fazer nessa nova fase.
Porque, apesar do nome, “Como É Que Fala de Amor?” não é propriamente uma música de amor.
É uma música sobre regras. Sobre mercado. Sobre fama. Sobre inovação. Sobre aquilo que vende, aquilo que vira moda e, principalmente, sobre quem ganhou o direito de decidir o que o sertanejo deve ou não ser.
Gustavo não começa o álbum contando uma história. Ele começa fazendo perguntas.
E existe algo nessa escolha que lembra uma característica muito presente no rap: usar a palavra não apenas para narrar, mas para confrontar.
“Como É Que Fala de Amor?” transforma a palavra em confronto
A comparação com o rap não está necessariamente na sonoridade.
Inclusive, o material de divulgação de Pensamentos Intrusivos descreve “Como É Que Fala de Amor?” como uma faixa de pegada mais roqueira.
A aproximação acontece em outro lugar.
Está na maneira como Gustavo escreve.
O rap tem uma longa relação com a palavra enquanto instrumento de posicionamento, contestação e expressão de identidade. Em diferentes momentos de sua história, artistas usaram versos para questionar estruturas, responder ao próprio meio e desafiar consensos ao redor deles.
É essa postura, guardadas todas as diferenças entre os gêneros, que “Como É Que Fala de Amor?” faz lembrar.
Gustavo não precisa criar um personagem ou apontar um adversário específico.
O adversário da música é uma lógica.
Quando pergunta quem dita a moda, quando coloca “modinha” e “modão” na mesma discussão ou quando confronta a ideia de que o sertanejo não foi feito para inovar, ele transforma os versos em argumento.
É quase uma conversa atravessada com tudo aquilo que, em algum momento, tentou estabelecer uma fronteira rígida para o gênero.
Não é rap.
Mas existe ali uma atitude que o rap conhece muito bem: se existe uma regra sendo tratada como verdade absoluta, a letra pode ser o lugar para perguntar quem criou essa regra.
Gustavo Mioto fala do sertanejo de dentro do sertanejo
E talvez essa música só funcione dessa maneira porque Gustavo não está observando o sertanejo de fora.
Ele pertence a essa história.
Sua carreira foi construída dentro do gênero, entre músicas sobre relacionamento, grandes refrões, rádio, streaming, shows e um público que acompanhou diferentes fases de sua identidade musical.
Por isso, a provocação tem outro peso.
Gustavo não está dizendo que o sertanejo precisa acabar para que algo novo exista.
Ele está perguntando por que o novo precisaria deixar de ser sertanejo.
Essa diferença é importante.
Porque “Como É Que Fala de Amor?” não soa como alguém tentando se afastar de suas raízes. Soa muito mais como alguém íntimo o suficiente delas para conseguir questioná-las.
E talvez seja justamente aí que mora a coragem de Pensamentos Intrusivos.
Quando já existe uma fórmula que funciona, arriscar custa mais
É relativamente fácil defender experimentação quando ainda não existe uma expectativa construída ao redor de um artista.
Com Gustavo Mioto, existe.
Existe um público que sabe reconhecer seu jeito de escrever. Existem músicas que ajudaram a consolidar sua identidade. Existe uma carreira que já encontrou caminhos capazes de funcionar comercialmente.
E mesmo assim ele decidiu mexer.
Quando anunciou Pensamentos Intrusivos, Gustavo escreveu aos fãs que vinha falando havia algum tempo sobre “tentar e arriscar algo diferente” e que resolveu apostar novamente naquilo que sua própria verdade pedia. Ele também descreveu o projeto como um dos momentos mais importantes de sua vida e como o início de um caminho novo.
Isso ajuda a entender “Como É Que Fala de Amor?” para além de uma faixa isolada.
Talvez a maior ousadia não esteja simplesmente em colocar outros elementos musicais dentro do sertanejo.
Está em aceitar que experimentar pode desagradar justamente quem já sabe o que espera de você.
Coragem artística também é colocar em risco uma fórmula que já funciona.
Mirosmar, guitarra, modinha e modão: quem decidiu as regras?
Em poucos minutos, Gustavo percorre diferentes símbolos do próprio universo sertanejo.
Chapéu. Violeiro. Guitarra. Modinha. Modão. Ranking. Fama.
Não como uma aula cronológica sobre a história do gênero, mas como imagens que ajudam a lembrar uma coisa importante: aquilo que parece tradição hoje nem sempre ocupou esse lugar.
No meio disso aparece Mirosmar.
A referência é a Zezé Di Camargo, que também faz parte da construção narrativa de Pensamentos Intrusivos. A própria sequência do projeto inclui uma faixa chamada “INTERLÚDIO ZEZÉ”.
A escolha combina perfeitamente com a discussão.
Porque Gustavo parece olhar para outras gerações para lembrar que o sertanejo nunca permaneceu completamente parado.
O gênero mudou de estética, incorporou instrumentos, aproximou-se de outras sonoridades, atravessou novas formas de produção e encontrou públicos diferentes ao longo do caminho.
E a pergunta que fica não é exatamente “isso ainda é sertanejo?”.
Talvez seja:
quem decide até onde o sertanejo pode ir?
O título fala de amor, mas a música fala de outra coisa
E então chegamos à pergunta que dá nome à faixa.
“Como É Que Fala de Amor?”
Isolada, ela poderia facilmente ser o título de mais uma música romântica de Gustavo Mioto.
Dentro da letra, ganha outro significado.
Depois de falar sobre mercado, fama, tendência, ranking e sobre aquilo que aparentemente precisa existir para uma música vender, Gustavo coloca o amor do outro lado dessa equação.
Quando questiona uma lógica em que certas fórmulas parecem necessárias para vender e em que a polêmica pode fazer uma “moda render”, perguntar como se fala de amor deixa de ser uma dúvida romântica.
Vira provocação.
No meio de tanta preocupação sobre o que performa, o que viraliza e o que vende, ainda existe espaço para simplesmente ter alguma coisa para dizer?
É por isso que “Como É Que Fala de Amor?” não precisa ser uma música de amor para ter o amor no título.
O amor funciona como contraponto.
É quase a parte mais simples da equação colocada diante de uma indústria que ficou cada vez mais complexa.
“O sertanejo acabou” e a provocação de quem ainda acredita nele
Existe ainda outra frase que atravessa a música: a velha sentença de que “o sertanejo acabou”.
Talvez seja uma das provocações mais interessantes justamente porque Gustavo escolheu lançar uma obra experimental sem abandonar o gênero.
Ele poderia responder a essa discussão tentando provar o que é “sertanejo de verdade”.
Não faz isso.
Pelo contrário.
Parece rejeitar a própria necessidade dessa prova.
Se a história do gênero sempre envolveu transformação, talvez permanecer vivo também signifique continuar absorvendo novas referências, novas formas de escrever e novas maneiras de pensar.
E Pensamentos Intrusivos parece querer testar justamente esses limites.
A coragem de “Pensamentos Intrusivos” começa pelo incômodo
Existe algo muito pessoal em um artista escolher começar uma nova fase confrontando o próprio lugar ao qual pertence.
Não porque deixou de gostar dele.
Talvez justamente porque se importa o bastante para não querer vê-lo imóvel.
“Como É Que Fala de Amor?” apresenta um Gustavo Mioto que não parece interessado em oferecer respostas prontas sobre o futuro do sertanejo.
Ele prefere incomodar com perguntas.
Quem dita a moda?
Quem separa modinha de modão?
Quem determina o que vende?
Quem decidiu que experimentar significa deixar de pertencer?
E é justamente nesse ponto que a comparação com o rap fica mais interessante.
Não pela estética. Não pela batida. Não por uma tentativa de encaixar Gustavo em outro gênero.
Pela coragem de transformar a própria música em confronto.
Talvez Pensamentos Intrusivos seja ousado justamente porque Gustavo não precisou sair do sertanejo para questioná-lo.
Ele fala de dentro.
Como alguém que conhece essa casa, vive nela há anos e, justamente por isso, se sente confortável o suficiente para perguntar:
Quem foi que decidiu onde deveriam ficar as paredes?
E você, até onde acredita que o sertanejo pode mudar sem deixar de ser sertanejo?




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